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OUTRA CARTA À SENHORA DONA UEFS
“Os tempos mudam, as coisas se transformam aceleradamente. E há tantos e tão evidentes sinais de que cada dia é uma nova era, mesmo que o essencial permaneça idêntico a si mesmo' ( José Maria Nunes Marques – ex-Reitor da Universidade Estadual de Feira de Santana, ex-Diretor da Faculdade Estadual de Educação de Feira de Santana, instituição que deu origem ao ensino superior em Feira de Santana).
' Pois é, Dona UEFS, foi dessa forma que iniciei a última carta que lhe fiz, há exatos seis anos, quando a Senhora completava 30 anos. Balzaquiana, hem!! Madura, senhora de si.
Peço-lhe licença, prezada balzaquiana, para explicar a quem me escuta agora a razão de, outra vez, escrever-lhe uma carta, já que aqui estou, neste mesmo espaço onde nasceu o ensino superior nesta terra abençoada por Santa Anna - mãe de Maria, avó do Menino Jesus -, participando de um evento público, e as cartas são textos – digamos, confidenciais - que têm destinatários definidos, especificados.
Gosto deste tipo de texto. Porque as cartas se oferecem como espaço privilegiado para viagens pelas lembranças, pela memória. Escrever cartas! Será que estou sendo démodé? Ih..... existe esse termo? Está fora de moda , não é? Os tempos mudam... Mas a essência... Há de existir. Sempre. Caso contrário, perde-se a identidade.
Pois é, minha Senhora, preciso explicar a quem agora me escuta que gosto de escrever cartas para a Senhora, Dona UEFS. Esta é a terceira que lhe escrevo. Foi o jeito que arranjei para, talvez, burlar a formalidade de falar em público ou é o jeito que tenho para expressar, com o coração, o profundo respeito por quem é tão cara para mim e para minha terra.
E, especialmente desta vez, encontrei na carta a melhor forma para realizar a mais verdadeira das viagens: a viagem pela memória. Iniciei essa viagem no momento mesmo em que recebi o delicado telefonema da Profª Selma Oliveira convidando-me, em nome do Magnífico Reitor, meu amigo de longa data, para participar de uma mesa-redonda sobre o Bando Anunciador da Festa de Santana.
Nossa!! Que viagem esse convite me permitiu realizar!! Fui mais longe nessa viagem no momento em que esse convite se fez mais formal quando recebi a carta-convite da diretora deste centro de cultura. Que Viagem!!...Voltei a ser menina adolescente, com todas as dúvidas e perplexidades que uma adolescente normalmente tem. Revisitei a menina que uma dia fui ( e ainda sou).
Descobri-me outra vez encantada junto à quermesse de madeira azul erguida na frente da Igreja de Senhora Santana, desejando aquele boneco de cabelo pretinho que José Carlos de Dona Mariazinha, minha comadre de fogueira, tentou, tentou até que conseguiu arrematar para mim. Ouvi, perfeitamente, os sons imponentes das garbosas Filarmônicas que elegantemente chegavam e ocupavam o coreto da Praça da Matriz para inundar de música e alegria os corações de homens e mulheres de todas as idades.
Vi, deliciosamente, a roda. A roda de meninas de vestido rodado com laço na cintura, rodando, rodando ao som mágico das Filarmônicas. Vi, assustada e de coração partido, o olhar firme da minha mãe que, junto à roda, me avisava que era hora de ir para casa.
Revi, com alegria, nó na garganta, as luzes e cores e sabores dos parques de diversão com roda gigante, carrossel, algodão doce, pipoqueiro, maçã do amor... que habitavam, no mês de janeiro, quando da Festa de Senhora Santana, a praça onde eu morava: a Praça de Padre Ovídio de São Boaventura. Nome bonito, homem bom.
Foi num tempo em que às crianças era permitido brincar na praça. Velocípedes, bicicletas rodopiavam no entorno da estátua protegidos por Padre Ovídio. Chicotinho queimado...Tantas brincadeiras... Namorados nos bancos da praça... Papos, prosas de amigos horas a fio, nos bancos da praça... Afinal, para que serve uma praça?? Os tempos mudam... Mas a essência... precisa prevalecer.
Ah!... ,minha amiga, mais uma vez a senhora me provocou, me cutucou – com lhe disse na primeira carta. E exatamente porque me provoca, porque me cutuca ( adooro essa palavra!) a senhora me possibilita aprender mais. Foi sempre assim, desde que transitei por seus corredores e salas de aula como estudante, como professora. Agora não foi diferente.
Quanta coisa percebi, quanta coisa compreendi, quantas relações estabeleci, a quantas conclusões cheguei com essa viagem pela memória que a senhora me fez realizar.
Senti orgulho da CIDADE CENTENÁRIA de Antonio Lopes:
Quero cantar-te, Feira de Santana
[...]
Tu nasceste minha terra
Da flor silvestre da serra,
Da água serena do arroio...
Da Valente vaquejada,
Entoando pela estrada,
A plangência de um aboio.
Senti saudade das segundas-feiras lembradas por Godofredo Filho no seu POEMA DE FEIRA DE SANTANA:
Feira de Sant’Ana do grande comércio de gado
Nos dias poeirentos batidos de sol compridos
Feira de Sant’Ana
Das segundas-feiras de agitações mercenárias
Correria de vaqueiros encourados.
Descobri a identidade masculina da minha terra, nos versos de Eurico Alves Boaventura:
Minha terra não é moça,
Minha terra é menino,
que atira badoque
[...]
que arma arapuca
e sabe aboiar.
Conheci o lado genuinamente e generosamente feminino da minha Feira, nos versos de ODE À FEIRA da Profª Alana Freitas:
Terra de Lucas, de Maria Quitéria e de tantas
outras Marias nas lutas do dia-a-dia
Essa terra também ama, é terra fêmea,
tem nome de mulher [...]
Filha de Santana, boa mãe que acolhe
os filhos de outros santos.
Com mais de cem, e com cara de menina,
quem mandou ser princesa?
Acompanhei, de vestido novo, rodado e com laço de fita na cintura, feito por minha mãe, a procissão de Senhora Santana com o poema de Iderval Miranda:
DIA DA PADROEIRA
a multidão expectativa
seguiu com olhos silêncio
o pálio lento e reto
repentinamente
rompe no fim da praça
a banda azul-trombone
diversificando a natureza de meus tímpanos
Encontrei, nos escritos da Profª Ana Angélica de Morais versos, de Maria José Dantas, nome de Escola, e - o que eu desconhecia - autora de poemas publicados no jornal Folha do Norte que expressavam lugares, eventos peculiares da Feira de Santana, como os que descreviam o aparato para a procissão da padroeira:
Mais uma vez Feira dá ares de prazenteira
[...]
Por toda parte um bulício
Impera em tudo a folia
[...]
Rojões estouram lá fora
Multiplicam as quermesses
Dentro e fora dos canteiros
Santana em rica charola
A visitar a cidade.
E versos em que Maria José Dantas se revela atenta a detalhes da festa do Bando Anunciador, evento que tinha como principal objetivo anunciar a festa em louvor à padroeira, mas, também, se caracterizava como espaço de confraternização, de encontro harmonioso de diferenças, espaço em que havia panfletos, como afirma Morais, alusivos ao Bando Anunciador, como aludido nos versos de Dantas:
Alerta povo da terra
Atento ouvi o pregão
[...]
Tereis pomposa função
Vamos todos em demanda
Dos festejos desse dia
Quer da cidade ou da roça
Moços, velhos, é folia.
[...]
Vinde gente de Jacuípe
Limoeiro, São José
De Bonfim e Gameleira
De Mangueira e Subaé
Haja assim toda alegria
Numa festa popular
Brinque o povo cuidadoso
Rendendo preito ao altar
E mostre o quanto todos
São bem-vindos à festa
Não falte a linda trigueira
Lá dos campos bela flor
Nem a terna sinhazinha
Com seu olhar matador.
Por essa veia literária viajei, e fui (re)descobrindo, rememorando, revisitando, revivendo momentos, vivências, traços. Traços que caracterizam, que identificam a terra onde nasci. Traços, realidades, vida que caracterizam a mim própria. Traços que revelam a essência de um lugar, de uma terra, de uma gente. Pois é, os tempos mudam... E mudam assustadoramente rápido. Mas a essência... Precisa prevalecer. Caso contrário, perde-se a identidade.
Pois é, prezada Dona UEFS, penso que foi com o propósito de não deixar que se percebesse a essência da identidade desta terra que a senhora se empreendeu neste Projeto de resgate de uma singular manifestação popular em reverência à padroeira e, com isso, vem possibilitando que gerações mais jovens, como a geração das minhas filhas, conheçam o que não viram, o que não viveram, que gente da terra, como eu, que fui espectadora desse evento possa adentrar em informações, compreender melhor, valorizar ainda mais o lugar em que nasceu, e que gente que aqui não nasceu, mas por esta terra foi generosamente adotado, fale dela com amor incondicional de filho, como faz o Prof. Augusto Spínola – professor de História empenhado em fazer com que seus alunos conheçam a história do lugar onde vivem, descubram seus valores, sua cultura, sua identidade.
Cantador da Feira de Santana é assim que o Prof. Augusto traduz o Bando Anunciador:
BANDO ANUNCIADOR
Debaixo das copas
Havia um bando
À sombra das
árvores
bem ao lado
Da Matriz
negros libertos
Mulheres vadias
homens-lobisomens
Misturavam-se
ao povo
sertanejo
de fé
Em orações à
Senhora avó de
Jesus
Era o tal
Bando Anunciador
De mais
uma festa
de Senhora Santana!
Era esse, Dona UEFS, o Bando Anunciador da Festa de Santana que eu via passar por detrás daquela janela da minha casa da Praça Padre Ovídio. Através do basculante entreaberto da janela da minha casa eu via, com um misto de temor, perplexidade, curiosidade, aquele mar de gente, anunciado por um foguetório assustador, passar antes do sol raiar.
Sentia temor, talvez pelo receio de ser vista ali apreciando aquele evento ou de ser repreendida pelos meus pais, afinal aquela algazarra não era espaço adequado para as mocinhas de família.
Perplexidade pela animação, descontração, alegria dos participantes, perplexidade com o painel tão diversificado que ali se configurava: homens com roupas de mulheres, caretas as mais estranhas, mascarados ( quem estaria por detrás das máscaras?), jeitos diferentes de dançar, de gargalhar, cartazes bem humorados ou denunciadores, fantasias improvisadas, charangas, zambumbas...
E curiosidade. Curiosidade para entender tudo aquilo e, sobretudo, entender por que as mulheres, as moças de família não deviam participar daquela festa.
Com tudo isso, entendi que, para além da minha janela, existia, aos meus olhos juvenis, uma Feira de Santana, digamos, bipartida, de duas faces: a Feira de Santana descontraída, criativa, que se mostrava como espaço de todos, popular, e a Feira de Santana bem comportada, que vestia roupa nova para acompanhar a procissão e louvar a padroeira. E este era o traço comum a essas duas Feiras : o louvor à padroeira. Modos diferentes, formas diferentes de celebrar, de louvar, de festejar. Mas a essência...
Pois é, Dona UEFS, pois é, que este Projeto de resgate do Bando Anunciador leve a Feira de Santana a compreender que a cultura popular se constitui como patrimônio de um povo, logo como patrimônio de todos, porque é manifestação identificadora desse povo, identifica o lugar onde esse povo constrói a sua história.
Que este Projeto e esta compreensão nos levem ao resgate de outras tantas manifestações populares desta nossa terra e à constituição – quem sabe – de um inteligente calendário de Festas Populares no nosso município.
Os tempos mudam, sem dúvida. As coisas se transformam, sem dúvida. Mas o essencial... Precisa prevalecer... Caso contrário, minha senhora, perde-se a identidade.
Obrigada por ter-me oferecido a oportunidade desta participação. Ela foi uma feliz, agradável circunstância que recebo como transformadora para a minha vida de filha desta terra e por ela apaixonada.
Obrigada por ter-me possibilitado uma viagem por minhas memórias e entender com ela (a viagem) que nelas ( as memórias) existe um pouco – ou muito, muito – de muita gente e, buscando traduzir isso em palavras – e palavras escritas –, sinto que, exatamente pela força imensurável da palavra, posso reconsiderar, reordenar o sentido de muitas coisas e ter mais clareza sobre projetos como este cuja importância mais significativa está em resgatar uma manifestação de um povo, uma manifestação cultural, simbólica, da gente que fez – e faz – esta terra de Senhora Santana, porque a simbologia permite olhar e expressar o real de muitas e diferentes formas, permite amenizar o peso da realidade, possibilita reordenar e ressignificar a realidade que, por vezes, é cruel, excludente, dividida; possibilita resgatar a essência humana da vida. Conduz-nos para a liberdade e a redenção – caminhos indispensáveis para a dignidade e para a felicidade.
Palmas para a senhora, Dona UEFS, que tem projeto desta estirpe. Palmas, minha amiga, para todos que aqui tiveram a generosidade de me escutar.
Salve, salve o Bando Anunciador.
Salve, salve, Senhora Santana, padroeira nossa, padroeira desta terra formosa e bendita.
Professora Ana Rita Neves
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